Quantas histórias um banco poderia contar? Muitas, eu poderia contar muitas delas, mas creio que só me interessei por uma, em minha longa existência.
Ele não era alto nem baixo, nem magro nem gordo, nem bonito e nem feio, ele era um homem, um homem não, um jovem homem. Ela... ah ela era linda, perfeita, cabelos sedosos, pele macia, sorriso encantador, cheirosa, educada. Pelo menos, era como ele os via. Como o sentimento cega os homens.
Ele sempre chegava primeiro, sentava-se e passava os olhos pelo jornal, como se nada estivesse esperando, no começo ela só passava, ele por sua vez não escondia o cortejo, ou era inexperiente ou queria se fazer visto, sinceramente, pelo ritmo de seu coração quando ela o
olhava, acredito que posso excluir uma das opções. Como eram belos os cortejos daquela época, quase enoja-me, compará-los com os de hoje. Para minha surpresa, um belo dia, ela chegou primeiro. Sentou-se, com um sorriso e um coração saltitante, foi o único dia que isso aconteceu, pela surpresa do rapaz ao vê-la ali, aquele encontro não era esperado. Ah, como as mulheres são delicadamente inteligentes, eu realmente queria sentir o coração do rapaz naquele momento.As semanas se passaram, os messes, e eu fui testemunha daquele amor juvenil. Não se engane, eu fui palco de muitos desses, mas aquele era um caso singular, e fui comprovando minha teoria, vez mais, com o tempo. E o tempo, com certeza o principal personagem para minha historia.
Não vou me alongar contando detalhes desnecessários desse meio tempo, foi um namoro comum, os corações saltitavam ao se verem, o dele, muito mais que o dela, os beijos discretos. Posso dizer com certeza que eles se casaram, desapareceram um pouco
de minha presença, fui vê-los anos depois, alias, eles foram me ver, me apresentaram sua pequena, confesso, a menina jamais teria a sutil inteligência da mãe. Algumas vezes eu os via passar e era só, outras eu aproveitava da companhia do casal. Reparei que não mais havia a palpitação dos corações, não como antes, elas existiam, mas eram mais tranqüilas, mais seguras.
Eu podia ver o amor no sorriso, no modo como ele delicadamente segurava sua mão, afagava seu cabelo, na atenção desnecessária que dava a cada palavra da mulher, confesso mais uma vez, que era a mulher que me fascinava, ela continuava com a mesma sutileza em cada um de seus gestos. O modo como ela o olhava, como sorria para ele quando ele não olhava, me provavam o amor recíproco dos dois, mas foi o homem, quem me surpreendeu.
Anos se passaram sem que eu pudesse vê-los, talvez décadas, mas como fies que eram as suas memórias, eles voltaram, foi a penúltima vez que vi aquele homem. Não existiam mais corações palpitando, eram dois velinhos, de cabelos grisalhos, com as mãos dadas do mesmo modo estranhamente carinhoso. Eu não entendia, não naquele momento, como os corações se acalmavam, mas o olhar mostrava o mesmo sentimento de décadas atrás, ledo engano, não era o mesmo sentimento.
Sentaram-se, olharam-se, sorriram. Os corações estavam calados, quem falava naquele momento era o olhar, com minha atenção voltava a eles, perdi a noção do tempo, quando aquele casal de velinhos saiu já era noite, só depois reparei que eles observavam em silencio, o por do sol. Aquela calma no coração me intrigou, era uma calma que nenhum solteiro tinha, que nenhum amante tinha, só ele e ela.

Ele voltou pela ultima vez, sozinho, o coração batia desritimado, ele falou, parecia saber de minha observação desde o primeiro dia. Falou com lagrimas na garganta e felicidade nos lábios.
– Eu pude sentir o amor, o verdadeiro amor. Te agradeço por isso!
Se pudesse falar, eu teria agradecido de volta, porque eu também pude ter uma ínfima noção, do que era aquilo. Seu coração se acalmou mais uma vez, o sol se pós. Eu nunca mais o vi.
Eu queria escrever sobre o que era o amor de verdade, no fim das contas, achei que minhas palavras tinham saído muito confusas. Acabei achando um exemplo perfeito, espero que entendam da maneira que eu entendi.